Alex Ratts e seu beira-marinho: UMA ENTREVISTA ANTECIPADA

Leitura solidária contra a covid-19
20 de junho de 2020

alex ratts, tem cinquenta e seis anos, nascido em Fortaleza, residiu em São Paulo e mora em Goiânia. é poeta, antropólogo, geógrafo, professor universitário. escreve poesia desde a juventude. tem poemas publicados em coletâneas (Coletânea Poética Ogum’s Toques Negros. Salvador, Editora Ogum’s Toques Negros, 2014; Revista Organismo V. Salvador, Segundo Selo, 2018; Transition – The Magazine of Africa and Diaspora – 2018). como veremos, responde quase tudo com humor ou, como se diz no Nordeste, com gaiatice.

 

entrevista

 

perguntadô: beira-marinho, publicado pela editora Segundo Selo de Salvador, é seu primeiro livro de poemas. como está vendo esse momento? demorou a chegar?

resposteiro: devo informar que este é o segundo conjunto de poemas que preparei para publicar. mais por mim do que por outras circunstâncias, quis o destino que este viesse a público primeiro. como diz um dos poemas: “demorô, camará, demorô / demorô, não demora mais”.

perguntadô: qual o seu contato com a poesia? desde quando escreve?

resposteiro: na infância, havia cantigas de roda, cantos de igreja, violeiros no rádio. no fim da rua tinha um terreiro, mas minha mãe não deixava ficar. houve ao menos uma vez, com o pai, a festa de Iemanjá na Praia do Futuro. depois em Juazeiro do Norte, ouvi os benditos. hoje percebo que vivi cercado de uma poesia oral, visual, corpórea.

perguntadô: e na escola?

resposteiro: ainda em casa, tinha rádio e vitrola, meus tios e minha tia trabalhavam em duas emissoras com sonoplastia e outras técnicas. chegavam discos e compactos de artistas do Brasil e dos Estados Unidos. muito da musicalidade nordestina e negra brasileira se fixou aí para mim. era o tempo de conhecer essa poesia articulada com a canção – letra e música.

na escola, somente no ensino médio, tive um professor/poeta que nos apresentou Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Maiakovski e fazia longas declamações para sua amada. eu rascunhava alguns poemas, seja pra seca ou pra um paquera e nada foi guardado.

perguntadô: então, você leu poetas brancos. ainda lê? alguns são suas influências?

resposteiro: li e não morri. aqui e acolá, além dos modernistas, retorno a alguns como Paulo Leminski ou Torquato Neto. as influências deixo pra quem se aventurar a estudar o que escrevo. adianto que qualquer pessoa pode ler o que escrevo, mas se for pra ser estudado, que seja por semelhantes.

perguntadô: [cara de surpresa] … e na juventude, continuou lendo e escrevendo poesia?

resposteiro: foi na universidade e nos movimentos sociais, no período da redemocratização, que adentrei na poesia, chegando até recitar alguns poemas, num contexto animado por lutas negras, indígenas e camponesas e por músicas negras e latino-americanas. havia os poemas do armário também.

perguntadô: como assim, poemas do armário?

resposteiro: seja numa canção de Cazuza – Codinome beija-flor – ou nos poemas, o nome do amor ficava resguardado.

perguntadô: você tem se tornado conhecido no meio da literatura negra, nas redes sociais, inclusive por sua militância. nesse campo, o que você lia, quem você lê?

resposteiro: obviamente, na escola, não li Maria Firmina dos Reis, Cruz e Souza, Machado de Assis, Lima Barreto e Mário de Andrade como autores negros. não lembro de ter lido Luiz Gama. a poética negra me chegava pela música, pelos discos: o samba, o reggae, o frevo, o samba-reggae, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. mesmo que tenha lido uma ou outro poeta por meio dos jornais do movimento negro que chegavam a Fortaleza, foi em São Paulo, com quase trinta anos que conheci autoras e autores desse horizonte: em apresentações ou publicações. foi também quando conheci o rap.

alguns de meus faróis são: Paulo Colina, Ricardo Aleixo, Edimilson de Almeida Pereira, Conceição Evaristo, Beatriz Nascimento, Elisa Lucinda, os capitães e as capitãs das congadas. estou atento a alguns saraus periféricos e slams. outras luzes negras me animam: Maria Thereza (em memória), tatiana nascimento do santos, Livia Natália, Eliane Marques, Daniel Marques (em memória), Gabriel Sanpêra, Lubi Prates e as coletâneas Louva-Deusas, pretextos de mulheres negras e Enegrescência. com essa lista, tenho consciência que deixei vários nomes de fora, mas estão na biblioteca.

perguntadô: o título – beira-marinho – parece se remeter à sua vivência em Fortaleza. seu texto de apresentação e alguns poemas evocam esse cenário. São Paulo e Goiânia não lhe marcam?

resposteiro: viajei muito pelo país, a trabalho. residi em três cidades – Fortaleza, São Paulo e Goiânia – e sonho com uma quarta: São Luís. duas praias, dois sertões. em Salvador o poeta saiu da gaveta. muita coisa e muita gente me marca. os sinais estão nos poemas.

perguntadô: onde e quando beira-marinho foi escrito?

resposteiro: os poemas contidos no livro foram escritos em meio a um estudo entre duas cidades. velando o sonho daquela me conhece há mais tempo, à beira de um ataque de nervos, no sobe e desce da gangorra, nome lúdico que dei à enfermidade. começam a ser escritos antes de ser recolhido pra cuidar do Ori e depois da outra reclusão pra cuidar da cabeça.

perguntadô: quais são os próximos trabalhos poéticos ou literários?

resposteiro: desatar um nó e publicar o primeiro livro ou partir para o terceiro que vai ficar sendo o segundo.

 

 

 

 

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